domingo, 6 de outubro de 2013

A opinião que o Autor tem da Bélgica

A opinião que o Autor tem da Bélgica é simples de explicar e ocorre ser justificada pelos factos históricos. A Bélgica não é senão o passadiço dos alemães para a França. Foi assim em 1914, foi assim em 1939, e sê-lo-á assim sempre. A este quasi anátema do todo histórico que a Bélgica é, exceptuo, porém, dois dos seus cidadãos: Hercule Poirot e o Cardeal Mercier - um deles é uma personalidade fictícia e o outro está morto. O primeiro, mesmo não existindo, preferiu emigrar para Inglaterra, onde todos julgam que ele é francês. O segundo, clérigo, homem de sentimentos cristãos, além de competentíssimo filósofo, devia tomar a nacionalidade à conta de penitência. Fora estes dois singulares, a Bélgica só tem relevância sazonal, de cada vez que os alemães se lembram de aniquilar definitivamente a França.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Em que se nota a estranheza das capacidades comunicativas humanas

Os humanos são animais muito peculiares. Emitem entre si uns ruídos estranhos e sofisticados e comportam-se como se fosse assim que se conhecessem uns aos outros. Não era mais económico serem como os outros animais que não têm dentro? Serem, enfim, como nas restantes espécies em que tudo está projectado para fora: só olham, ouvem, cheiram, palpam e degustam?

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Uma pedra no sapato

Quem me conhece sabe que é meu hábito andar por aí com o calçado desapertado. Não é de agora - os hábitos de infância são, em geral, bons de manter.  Assim andando, vou sendo avisado por quem passa ou vê passar para o facto, como se ele fosse qualquer coisa importante. Dirá o leitor que a cordialidade dos transeuntes contrasta com o meu próprio desmazelo. Não me parece, admitindo discordâncias neste ponto absolutamente irrelevante. O que de interessante há nisto é a extraordinária amostra de solicitude das gentes que podemos observar. Observemos então: é legítimo pensar que aquele que avisa previne uma queda embaraçosa para o sujeito desatado. Haverá um risco diminuído pela acção do observador, em consequência. Mas que risco há mesmo? Não creio haver relatos de situações como aquela em que António pisa com o sapato apertado o atacador desapertado, e acto contínuo, inclina-se para a frente, desferindo portentosa cabeçada no espantoso peito de Bruna que, incapaz de suportar virilmente o impacto, tomba para trás batendo com a cabeça no chão e morrendo. Ora, o que com isto pretendo provar é que o aviso visa, essencialmente, proteger o destinatário do mesmo. Portanto, a acção solícita é altruísta. Tenho para mim que o altruísmo é bom e que será tanto melhor quanto mais importante for o fim com que é praticado. Claro que existem diferentes perspectivas sobre a importância do fim: a minha e a de quem me avisa - eu, ser pouco dado a apertos, tendo a achar que é desproporcionado o altruísmo que é dedicado a um atacador; a verdade é que a realidade obriga-me a constatar que esta minha opinião é claramente minoritária. Não é que seja algo desprezível, embora às tantas incomode. O que eu gostava mesmo é que se tomasse consciência da magnitude deste nosso costume bem como da inconsequência ontológica do sapato desapertado em via pública. Estaria então dado o primeiro passo para civilizar um pouco a malta da metrópole no que toca à interacção social. Eis o egoísmo como supremo altruísmo, no fim de contas.