domingo, 30 de junho de 2013

Árvore Bonsai

Desde pequeno que me dizem para ser alguém.
Desde pequeno que tento saber o que é isso de ser alguém.

Desde pequeno que me dizem que o meu futuro será brilhante se tiver um canudo debaixo do braço. "Ah, o belo do certificado que nos torna alguém!" pensei eu, já com uns copos a mais. Enganei-me. Não tanto no conteúdo dos ditos copos, mas sim na súbita epifania.

Ser alguém não é ter um canudo. Mas se pensarmos nisso, o canudo no sentido verdadeiro da palavra é feito de cartão, que por sua vez é feito de papel, que por sua vez vem das árvores. Então, um canudo até ser canudo passa por várias fases da sua efémera vida. Será que também sonha em quem foi numa vida passada? Ou em quem será numa vida futura? Não tem forma de saber que já foi uma árvore.

Ele não, mas em Portugal, somos árvores bonsai. Daquelas árvores miniatura, que nunca crescem em tamanho e vivem constantemente apavoradas a tentar garantir a sobrevivência. Não crescem porque há sempre alguém a cortar-lhes as raízes principais. A árvore bonsai oferece-se, é uma prendinha que se dá no Natal, que se guarda no escritório. "Oh, tão gira" diria a nossa tia do bibe cinzento.

Nós somos árvores bonsai.

Quando achamos que somos alguém porque temos um canudo, cortam-nos as raízes.
Quando percebemos que não é o canudo que faz de nós gente, continuamos de raízes cortadas.
Quando achamos que estamos na melhor fase da nossa vida e que temos o mundo pela frente, cortam-nos as raízes.
E vamos continuar aqui.
Nunca faremos parte de um pomar, nunca daremos pólen às abelhas.
Não enquanto nos cortarem as raízes.

A teoria da alma em Aristóteles: Propriedades da vida I (colocação do problema e considerações metodológicas)

Em um rescrito anterior pude expor de maneira genérica e muito sintética a doutrina que é o coração da Cosmologia aristotélica e que procura resolver o problema da constituição última dos entes materiais: o hilemorfismo, isto é, a teoria de que as substâncias corpóreas são constituídas por dois princípios essenciais, chamados matéria-prima e forma substancial. Isto foi necessário, porque a filosofia aristotélica é uma filosofia sistemática em que as várias disciplinas filosóficas se ordenam sob leis metafísicas gerais e os princípios e conclusões dos vários campos de estudo particulares se articulam entre si em relações de generalidade e especialidade. Assim, se nos propomos tratar da teoria aristotélica da alma humana - mas não ignorando as correcções e aperfeiçoamentos trazidos depois a esta teoria, principalmente por São Tomás de Aquino - é preciso saber que a Psicologia aristotélica toma como princípios da sua ciência as conclusões do hilemorfismo, ao modo de premissas na qual estão potencialmente contidas conclusões próprias do seu objecto formal (que é o ponto de vista específico sob o qual uma ciência estuda certa realidade).

A Psicologia pode ser definida como a ciência da alma se tomarmos como ponto de partida a etimologia da palavra: psychê + logos. Também é acertado defini-la com alguma latitude como a ciência da vida, porque o seu objecto material (isto é, o ente estudado por uma ciência independentemente de qualquer determinação particular) é a vida manifestada em todos os seus graus. O problema da alma foi colocado por Aristóteles a propósito do problema da vida, a fim de explicar a radical distinção entre os seres viventes e  não-viventes que se apresenta manifesta nos dados da experiência sensível.

Uma forma de monismo antiga pretendia que toda a matéria é viva - chamou-se-lhe hilezoísmo (hylé, matéria; zoé, vida). Segundo esta concepção estranha há no mundo um princípio único e tudo é tudo. Na nossa época, o teosofismo - seita fundada por Madame Blavatsky no século XIX - defendia doutrina semelhante: matéria e espírito eram uma e a mesma coisa: portanto, nenhuma distinção entre viventes e não-viventes.

Numa atitude oposta, Descartes desconsiderou as diferenças entre seres viventes e não-viventes e acabou por reduzir a actividade vital a uma manifestação mecânica que não era essencialmente distinta da actividade dos corpos inorgânicos. Na verdade, Descartes julgava que a alma humana era essencialmente o pensamento e que todos os movimentos que no homem não dependessem do pensamento, não se diferenciavam em nada dos movimentos dos corpos inorgânicos (cfr. arts. 4 e 5 de Das Paixões da Alma).

É preciso, então, a fim de encontrar uma definição adequada de vida, que, como toda a boa definição, deve abranger todos as manifestações de vida e nada mais do que estas, descobrir quais são as propriedades da vida. É que, de facto, sem nos eximirmos da tarefa de vir a explicitar melhor qual é o método da Psicologia, devemos desde já estabelecer uma proposição geral que se aplica a todo o conhecimento humano das coisas naturais e, pois, necessariamente, também a este nosso estudo. Em virtude do nosso modo de conhecer, em que não há, de maneira nenhuma, ao contrário do que pretendeu Husserl, uma intuição da essência das coisas, para tomar conhecimento da essência de uma substância, teremos que partir dos seus acidentes, que para nós são mais conhecidos, porque impressionam os sentidos, causa instrumental necessária de todo o nosso saber. Assim, e como escreve Aristóteles (De Anima, I, 1), para dizer qual é a essência de um sujeito, devemos primeiro investigar as propriedades da substância que caem sob a nossa experiência sensível. E, além disso, como só o acto é cognoscível para nós, e a potência por meio do acto, devemos investigar os actos da substância, a fim de descortinar as suas potências (ou faculdades), e, por fim, determinar a natureza que possui essas faculdades, porque a operação necessariamente segue o ser.

A palavra vida é aquilo que, em boa lógica, se chama nome abstracto, ou seja, que significa sem composição com o sujeito. É abstraído de um nome que significa com o sujeito - vivo ou vivente - e tem correspondência com o conceito universal abstraído dos indivíduos. Como conceito universal, só existe na nossa mente - ao contrário do que sustentava Platão -, embora corresponda a algo real mas que apenas subsiste em indivíduos concretamente existentes. Assim, delinear uma definição de vida - i.e., declarar a sua essência - dependerá da observação das propriedades dos corpos vivos, os quais dizemos vivos quase intuitivamente, pela subsunção a um conceito confuso que temos do que seja a vida e que é o princípio de toda a investigação de qualquer definição científica. Assim, dizemos que é viva a célula, vivas as plantas, os animais e, por fim, o homem.

No próximo texto, tentaremos sintetizar quais são as propriedades observadas nos corpos vivos, procurando perceber qual é o alcance da distinção entre os corpos viventes e os não-viventes.

domingo, 23 de junho de 2013

Desconhecidos

Não admites mas conforto é o que mais queres na vida. Tens medo de morrer sozinho e nem a garrafa vazia espelha a solidão com que tens de viver todos os dias. Não acendes a chama em ninguém, não aqueces nem confortas o suficiente. As baladas que cantas não encantam musas inspiradoras e as que ouves afastam-nas.

Todos querem alguém que os aqueça durante a noite e que os faça suspirar de alívio quando a desgraça assola o mundo. A estabilidade perfeita de alguém que aprendemos a amar porque nos dá jeito e é cómodo. As noites frias depressa se aquecem, o frio deixa de rasgar a pele quando espreitas de uma ravina. A ganância está em termos de onde beber e ainda assim, querermos um melhor vinho.

Assinam-se os termos e condições a que ninguém presta atenção. Eu aceito-te como a minha reconfortante companheira. Tu aceitas-me como o teu porto seguro. E ficamos assim, descrentes um no outro, desconhecidos.

A teoria da alma em Aristóteles: preliminares cosmológicos

É sabido que Aristóteles desenvolveu a teoria hilemórfica que procura explicar a constituição última dos corpos pela união de dois elementos essenciais. Diz a teoria aristotélica que um corpo, qualquer corpo, é formado por dois princípios essenciais, irredutíveis entre si – matéria-prima e forma substancial.

Existe um princípio que é a raíz daquelas propriedades que estão presentes em qualquer corpo, como o são, por exemplo, a extensão e a divisibilidade - as suas propriedades quantitativas. Não é por este elemento que os corpos se distinguem entre si, como se compreende – este princípio é a causa dos elementos comuns a todos os corpos.

Além disso, há um elemento indeterminado em cada corpo, que é o substrato das determinações qualitativas que são perdidas e adquiridas, um elemento que permanece mesmo quando podemos dizer que um corpo mudou de espécie – ou seja, um elemento potencial. A este princípio chama Aristóteles matéria-prima.

Por outro lado, existe também um outro princípio corpóreo que é irredutível à matéria-prima. Os corpos, além das suas propriedades quantitativas, tem também propriedades qualitativas, princípios da sua actividade específica, pelas quais dizemos que um corpo é desta ou daquela espécie e pelas quais se distingue dos demais tipos de corpos.

Além disso, os corpos estão sujeitos a contínuas mudanças. Em toda a mudança, há um elemento estável e um elemento que desaparece ou é adquirido – aquilo que determina desta ou daquela maneira o elemento estável, ao ponto de podermos classificar o corpo nesta ou naquela espécie, bem como aquele princípio que determina a fixidez e a unidade da essência do corpo enquanto este é sujeito a mudanças mais superciais (acidentais) é um princípio de ser realmente distinto daquele que é determinável. Este princípio é acto que determina a potência (matéria-prima) – é a forma substancial.

A substância corpórea é assim composta de dois princípios – matéria-prima e forma substancial. Só o composto é apto para existir: a matéria-prima, porque é totalmente indeterminada e pura potência, só pode existir unida a uma forma substancial que a actualiza enquanto elemento intrínseco do composto; a forma substancial dá o o ser à matéria, mas permanece existindo unida com ela, como acto que informa a potência. Assim, nenhuma destas partes físicas do composto tem ser por si mesma – só ao composto compete existir por si mesmo e só o composto é gerado e corrompido por si mesmo.